O café-debate do Lide Ceará, realizado nesta terça-feira (30) no Gran Marquise, reuniu empresários e lideranças locais para ouvir Marcos Gouvêa, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, um dos maiores especialistas em varejo e consumo da América Latina. Convidado pela presidente do Lide Ceará, Emília Buarque, o palestrante não decepcionou: com clareza e bom humor, transformou um tema denso como pós-globalização em uma narrativa acessível, cheia de provocações e reflexões práticas.
O Brasil e a falta de rumo
Logo de início, Gouvêa arrancou risos ao relativizar seu currículo, dizendo que “é mais uma questão de idade do que de competência”. Mas a leveza deu lugar a um alerta sério:
“O Brasil não tem um projeto de nação. O que existe é apenas um projeto até a próxima eleição.”
Para ele, enquanto a China organiza o futuro com investimentos maciços em tecnologia, inteligência artificial e educação, o Brasil continua desperdiçando oportunidades.
O consumo em tempos de contradições
Com gráficos e dados projetados, Gouvêa explicou que o cenário brasileiro mistura avanços e travas:
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Desemprego em baixa, mas com distorções, já que milhões de beneficiários do Bolsa Família não são contabilizados.
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Massa salarial em alta, alcançando o maior patamar em 15 anos.
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Inflação de alimentos e endividamento recorde, consumindo a renda das famílias e esfriando a confiança.
“Temos mais dinheiro circulando, mas também mais cautela no consumo. Essa equação explica o baixo fôlego do varejo”, resumiu.
Serviços: a chave para o futuro
Com a mesma didática de quem explica para amigos em uma mesa de café, Gouvêa destacou que o grande diferencial das empresas está na incorporação de serviços aos produtos. “Produto puro virou commodity. O que agrega valor é a solução completa”, disse, citando exemplos do Carrefour, hoje mais banco que supermercado, da Nike, que virou referência em saúde e bem-estar, e da Apple, que usa a educação como alavanca de negócios.
Dois Brasis, dois consumos
O palestrante lembrou ainda que convivemos com dois Brasis distintos: o afluente, que impulsiona o luxo e cresce 26% no período recente; e o de valor, que encontra nos atacarejos o melhor aliado. Essa polarização, segundo ele, exige das empresas estratégias sob medida para públicos cada vez mais diferentes.
Educação e talentos
Com ironia fina, Gouvêa destacou a desproporção na formação de talentos: “Temos 474 advogados para cada 100 mil habitantes e muito poucos engenheiros. Estamos formando gente nas áreas erradas para o futuro que já chegou.”
Convocação ao empresariado
O tom final foi um chamado à ação.
“A situação é complexa demais para delegarmos só ao governo. O setor empresarial precisa estar mobilizado, atuante e presente.”
Com clareza, leveza e boas doses de humor, Marcos Gouvêa deixou sua marca no Lide Ceará: um retrato sem retoques do Brasil atual, mas também uma mensagem de otimismo para quem está disposto a fazer diferente.




