Mais mulheres, novos desafios

Ceará elege 21 mulheres e amplia a presença feminina, ainda distante do equilíbrio na representação.

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Maioria na população, as mulheres ainda ocupam a menor parte das cadeiras onde se decide a vida de todos. As eleições deste domingo ampliaram esse espaço no Ceará: 21 mulheres eleitas, entre vice-governadora, senadora e deputadas. Um avanço que merece registro — e uma leitura além dos números.

Na Assembleia Legislativa, serão 14 deputadas entre 46 parlamentares: 30,43% das cadeiras. Na bancada cearense da Câmara dos Deputados, cinco entre 22: 22,73%. São recordes, mas a representação feminina continua distante de seu peso na população.

As trajetórias também contam histórias diferentes. Há mulheres com carreira consolidada, estreantes em mandatos e outras que combinam experiência própria com estruturas familiares de poder. Renovação de nomes nem sempre significa renovação das bases políticas.

Gabriella Aguiar, vice-governadora eleita na chapa de Elmano de Freitas, é médica geriatra, foi deputada estadual e chegou à vice-prefeitura de Fortaleza. Tem formação e experiência próprias, além da força política dos pais, o ex-vice-governador Domingos Filho e Patrícia Aguiar, prefeita de Tauá.

Luizianne Lins, eleita senadora, representa outro percurso: construiu sua projeção na militância, foi vereadora, deputada estadual, prefeita de Fortaleza por dois mandatos e deputada federal. Estreia no Senado com uma longa estrada percorrida.

Entre as federais, Tainah Marinho estreia em mandato eletivo com a maior votação feminina para a Câmara na história do Ceará. É esposa do presidente da Alece, Romeu Aldigueri, cuja base política integra sua caminhada.

Giordanna Mano, advogada e ex-prefeita de Nova Russas, é esposa do deputado federal Júnior Mano. Fernanda Pessoa, reeleita, reúne experiência parlamentar e a estrutura do pai, Roberto Pessoa, prefeito de Maracanaú.

Erika Amorim, ex-deputada estadual, chega à Câmara apoiada também pelo grupo do marido, Naumi Amorim, prefeito de Caucaia. Luisa Cela, psicóloga e ex-secretária da Cultura, combina experiência de gestão com a trajetória familiar: é filha da ex-governadora Izolda Cela e do ex-prefeito de Sobral Veveu Arruda.

Na Alece, as conexões com o poder municipal aparecem com nitidez. Liziany Medeiros é esposa de Felipe Pinheiro, prefeito de Itapipoca; Fabíola Carneiro, de Régis Carneiro, prefeito de Boa Viagem; Paloma Nunes, de Alex Nunes, prefeito de Tianguá; e Geórgia do Marcelão, de Professor Marcelão, prefeito de São Gonçalo do Amarante.

Manu Pimenta é filha de Cirilo Pimenta, prefeito de Quixeramobim, e esposa de Matheus Góis, ex-prefeito de Pedra Branca. Bella Carmelo, hoje vereadora de Fortaleza, chega à Assembleia para ocupar a vaga do marido, o deputado federal eleito Carmelo Neto.

Os vínculos familiares também atravessam a bancada reeleita. Jô Farias, com atuação na assistência social e experiência municipal, construiu sua carreira ao lado de Nezinho Farias, prefeito de Horizonte. Marta Gonçalves, professora e ex-vereadora e vice-prefeita, tem na base política do marido, Acilon Gonçalves, ex-prefeito de Eusébio e deputado federal eleito, um apoio importante de sua trajetória.

Dra. Silvana, médica e defensora de pautas conservadoras, é esposa do deputado federal Dr. Jaziel. Lia Gomes, médica e atuante em direitos humanos, é irmã de Cid e Ciro Gomes. Emília Pessoa, administradora e ex-vereadora de Caucaia, é prima de Roberto Pessoa, mas tem trajetória política própria.

Laís Nunes, ex-prefeita de Icó e esposa do ex-deputado Neto Nunes, retorna à Assembleia. Jade Romero chega com experiência de vice-governadora e passagem pela gestão pública. Dra. Mayra Pinheiro, médica e ex-secretária do Ministério da Saúde no governo Bolsonaro, conquista seu primeiro mandato na Alece.

O balanço exige uma distinção: na Alece, são oito estreantes na Casa, cinco reeleitas e uma retornando. Na Câmara, quatro chegam pela primeira vez e uma foi reeleita. Estrear num parlamento, portanto, não equivale a começar na política.

O peso de uma família ajuda a explicar oportunidades, alianças e bases eleitorais. Não resume, porém, a capacidade de cada eleita, nem dispensa o exame de seu trabalho. Esse critério vale igualmente para homens e mulheres.

O Ceará abriu mais espaço para elas. Agora, a próxima medida será a atuação: propostas, fiscalização, escolhas e resultados. Sobrenome pode abrir portas. O mandato oferece a oportunidade de construir uma assinatura própria.