Ele podia

Lúcio Brasileiro viveu como quis — e ensinou sem precisar explicar.

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Eu ainda me lembro da primeira vez que vi Lúcio Brasileiro. Eu era menino, desses que seguem o pai jornalista como quem acompanha um herói em campo. Ao lado do meu pai, Edilmar Norões, a quem Lúcio se referia como “Príncipe da Imprensa”, eu assistia, meio sem entender, àquele homem que parecia dominar qualquer ambiente sem esforço.

Não tinha roda em que ele não fosse o centro. Não porque quisesse aparecer — era simplesmente inevitável. Bastava chegar. A memória impressionante, o repertório inesgotável, a forma de contar histórias… tudo nele prendia a atenção. E eu, ainda garoto, ficava ali, quieto, só observando. Talvez sem saber, já aprendendo.

Lúcio dava aulas de etiqueta como poucos. Sabia tudo — o gesto, o tom, o momento exato de cada coisa. Mas também se dava ao luxo de subverter o próprio manual. Chegar de bermuda a uma festa elegante? Ele podia. E fazia disso quase uma assinatura. Era o tipo de liberdade que só quem construiu autoridade ao longo de décadas pode exercer.

Com o tempo, ele fez um movimento curioso: decidiu deixar de frequentar os eventos. Mudou-se para o Cumbuco, como quem troca o salão pelo vento do mar. Mas Lúcio não saiu de cena — a cena é que foi atrás dele. Nos fins de semana, sua casa se enchia de amigos. Tanta gente, tanta conversa, tanta vida, que nasceu dali o Ugarte, mais do que um restaurante, um ponto de encontro.

O Ugarte viveu fases. Já foi cheio, efervescente, quase uma extensão da personalidade do dono. Nos últimos tempos, abria em ocasiões especiais. A mais marcante era a Escola dos Amigos do Natal, que ele promovia todos os anos, reunindo gente, solidariedade e aquele clima que só ele sabia criar. Foi ali, inclusive, nosso último encontro — o registro que guardo com carinho, na foto que acompanha esta crônica.

Outra paixão dele era viajar. E viajar de verdade, com tempo. Ibiza era parada obrigatória, quase um ritual anual. Passava semanas por lá, vivendo como sempre viveu: intensamente. E foi justamente a Europa, que tanto amava, o cenário da despedida.

Os amigos tentaram convencê-lo a não ir. Mas Lúcio nunca foi de adiar a vida. Segundo me contou seu fiel escudeiro, Evando, ele respondeu com a lucidez de quem sabia exatamente o que estava fazendo: “Com 87 anos, eu não tenho mais tempo a perder. Quero viver tudo que eu puder”.

E viveu.

Talvez esse seja o consolo possível. Lúcio Brasileiro não foi interrompido pela vida — ele a percorreu inteira. Sem doença que o limitasse, sem concessões ao que não queria ser. Viveu do jeito dele, até o fim.

Hoje, fica um vazio difícil de explicar. Uma sensação de que falta alguém na mesa, na conversa, na memória coletiva da cidade. Mas também fica a certeza de que ele não caberia mesmo em ausências longas. Onde estiver, já deve ter formado uma roda, puxado assunto, feito rir.

E, quem sabe, reencontrado tantos amigos — inclusive o meu pai — para continuar aquela conversa que nunca parecia ter fim.