Opinião: A foto que chamou atenção no São João de Maracanaú

Depois de anos de distanciamento, Ciro e Roberto Pessoa reaparecem lado a lado e alimentam interpretações.

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Paulo César Norões, Publisher do Etc.

O encontro entre Ciro Gomes e Roberto Pessoa no São João de Maracanaú produziu exatamente o efeito que se esperava: fez muita gente procurar um significado político onde talvez exista apenas uma boa fotografia.

Não é pouca coisa. Afinal, durante anos os dois estiveram em trincheiras opostas e trocaram críticas que, em alguns momentos, pareciam definitivas. Por isso, ver Ciro chegando ao município e sendo recebido com cordialidade por Roberto Pessoa inevitavelmente chamou atenção.

Mas daí a concluir que existe uma reaproximação política em curso parece um salto maior do que os fatos permitem.

O próprio Ciro tratou o episódio muito mais como uma reconciliação pessoal do que como um gesto de articulação eleitoral. E é difícil ignorar o contexto. Hoje, Roberto Pessoa está cercado por aliados que orbitam a base governista. Sua relação com Elmano de Freitas é pública, consolidada e, até aqui, não há qualquer sinal concreto de rompimento.

Talvez o aspecto mais interessante da história nem seja o encontro em si, mas a reação de Elmano. O governador não demonstrou qualquer desconforto. Pelo contrário. Fez questão de elogiar o prefeito e tratar a visita como um gesto natural da convivência política.

Isso diz alguma coisa.

Nos últimos anos, a política brasileira se acostumou a transformar adversários em inimigos permanentes. Talvez por isso uma cena de civilidade pareça tão extraordinária. E talvez seja justamente esse o erro de interpretação.

Nem todo abraço esconde um acordo. Nem toda conversa é uma negociação. Às vezes é apenas política no sentido mais antigo da palavra: gente que já brigou muito, que continua pensando diferente em várias coisas, mas que aprendeu que não precisa transformar divergência em guerra pessoal.

Se houver algo além disso, o tempo mostrará. Hoje, porém, a fotografia parece valer mais pelo simbolismo humano do que pelo peso eleitoral.