
O encontro entre Ciro Gomes e Roberto Pessoa no São João de Maracanaú produziu exatamente o efeito que se esperava: fez muita gente procurar um significado político onde talvez exista apenas uma boa fotografia.
Não é pouca coisa. Afinal, durante anos os dois estiveram em trincheiras opostas e trocaram críticas que, em alguns momentos, pareciam definitivas. Por isso, ver Ciro chegando ao município e sendo recebido com cordialidade por Roberto Pessoa inevitavelmente chamou atenção.
Mas daí a concluir que existe uma reaproximação política em curso parece um salto maior do que os fatos permitem.
O próprio Ciro tratou o episódio muito mais como uma reconciliação pessoal do que como um gesto de articulação eleitoral. E é difícil ignorar o contexto. Hoje, Roberto Pessoa está cercado por aliados que orbitam a base governista. Sua relação com Elmano de Freitas é pública, consolidada e, até aqui, não há qualquer sinal concreto de rompimento.
Talvez o aspecto mais interessante da história nem seja o encontro em si, mas a reação de Elmano. O governador não demonstrou qualquer desconforto. Pelo contrário. Fez questão de elogiar o prefeito e tratar a visita como um gesto natural da convivência política.
Isso diz alguma coisa.
Nos últimos anos, a política brasileira se acostumou a transformar adversários em inimigos permanentes. Talvez por isso uma cena de civilidade pareça tão extraordinária. E talvez seja justamente esse o erro de interpretação.
Nem todo abraço esconde um acordo. Nem toda conversa é uma negociação. Às vezes é apenas política no sentido mais antigo da palavra: gente que já brigou muito, que continua pensando diferente em várias coisas, mas que aprendeu que não precisa transformar divergência em guerra pessoal.
Se houver algo além disso, o tempo mostrará. Hoje, porém, a fotografia parece valer mais pelo simbolismo humano do que pelo peso eleitoral.




