O operário e o herdeiro na largada eleitoral

Lula aposta na própria trajetória; Flávio Bolsonaro começa a enfrentar o peso da comparação com o pai.

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No primeiro domingo de campanha, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) escolheram cenários diferentes para apresentar discursos semelhantes em um ponto: ambos tentaram convencer o eleitor de que representam algo além do poder já conhecido.

No Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, Lula retomou as origens sindicais. Cercado por antigos companheiros e por uma produção de grande evento, revisitou a infância pobre, as prisões e a chegada de um operário à Presidência. “Um igual a vocês é capaz de fazer mais”, afirmou.

A estratégia busca aproximá-lo dos jovens que não acompanharam sua trajetória e reforçar sua ligação com a militância. Ao mesmo tempo, o presidente apresentou propostas como a criação do Ministério da Segurança Pública, a expansão do ensino integral e novos investimentos industriais.

Em Copacabana, Flávio iniciou a tentativa de transformar uma herança política em candidatura própria. O problema ficou visível: Jair Bolsonaro, mesmo ausente, dominou o ato. Sua voz foi reproduzida, seu bordão encerrou o discurso e o público pediu sua volta.

O senador reconheceu o tamanho da comparação: “É difícil comparar o Pelé com o filho do Pelé”. Entre críticas ao governo, prometeu combater a corrupção, estimular o setor produtivo e ampliar empregos para os jovens.

A abertura da campanha revelou dois movimentos. Lula tenta mostrar que sua história ainda pode produzir novidade. Flávio procura provar que não é apenas uma continuação do pai. Em comum, referências a Deus, acenos às mulheres e o esforço para ocupar o espaço do antissistema.

Segundo o Datafolha de julho, Lula aparecia com 40% das intenções de voto, contra 32% de Flávio. A largada confirmou a polarização, mas também deixou uma pergunta: nesta eleição, pesará mais a memória de cada campo ou a capacidade de oferecer um caminho próprio?

Os demais candidatos

Fora dos dois principais palanques, Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) também aproveitaram a largada para demarcar território. Se Lula recorreu à biografia e Flávio ao legado familiar, Caiado e Zema apresentaram como credencial a experiência recente à frente de Goiás e Minas Gerais.

Caiado iniciou a campanha em seu estado, ao lado do governador Daniel Vilela e de Gracinha Caiado, candidata ao Senado. Em uma carreata no entorno de Brasília, concentrou o discurso na segurança pública e tentou se diferenciar dos dois líderes das pesquisas. “Sou o único mãos limpas”, afirmou, ao prometer reproduzir no país o modelo adotado em Goiás.

Zema escolheu Montes Claros, no Norte mineiro, onde participou de uma missa e caminhou pelas ruas. O ex-governador organizou suas propostas em três eixos: combate à corrupção, controle dos gastos públicos e enfrentamento ao crime organizado. Também defendeu a redução da maioridade penal e a construção de “superpresídios”.

Já Renan Santos fez um ato no Largo São Francisco, em São Paulo, com um discurso mais agressivo. Inspirado na política de segurança do presidente salvadorenho Nayib Bukele, prometeu ampliar operações policiais e dirigiu ataques tanto a Lula quanto a Flávio Bolsonaro. Ao ironizar a ausência de manifestantes de esquerda no local, declarou: “Vamos passar o trator em vocês”.

A largada dos demais candidatos ampliou o cardápio de estratégias, mas revelou uma pauta recorrente: a segurança pública. Caiado oferece seu histórico em Goiás, Zema promete medidas nacionais de endurecimento penal e Renan aposta na retórica de confronto. São caminhos distintos para tentar romper uma polarização que, por enquanto, continua organizando a disputa.