Salário curto, preocupação prolongada

Endividamento exige dos setores de RH uma abordagem preventiva, sem julgamentos.

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O aperto no orçamento já não termina quando o trabalhador bate o ponto. Dívidas, contas atrasadas e falta de dinheiro para despesas básicas acompanham o profissional durante o expediente, afetando o sono, a concentração e o rendimento.

A Pesquisa de Saúde Financeira dos Trabalhadores 2026, da Serasa Experian, mostra que 53% dos brasileiros empregados chegam ao fim do mês sem recursos para pagar todas as despesas. Nesse grupo, 47% precisam recorrer a alguma fonte adicional para equilibrar as contas.

Os efeitos alcançam diretamente o ambiente corporativo: 51% relatam estresse no trabalho, 46% enfrentam exaustão, 35% percebem perda de atenção e 33% admitem queda de produtividade.

Para a psicóloga Izabela Holanda, da IH Consultoria e Desenvolvimento Humano, a preocupação financeira pode manter o trabalhador em estado permanente de alerta. “Ela pode ocupar espaço na atenção, aumentar a ansiedade, comprometer o sono e gerar um estado constante de alerta”, explica.

Isso não significa que a empresa deva administrar o dinheiro de seus funcionários. O desafio para o RH é oferecer informação, orientação e benefícios adequados, sem tratar o endividamento como falha individual.

A especialista também alerta que uma palestra ocasional dificilmente modifica um problema estrutural. Educação financeira, para produzir algum resultado, precisa ser contínua, acessível e integrada às políticas de bem-estar.

A discussão ganha importância com a inclusão dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento previsto pela NR-1. A dívida pessoal não se transforma automaticamente em risco ocupacional, mas seus efeitos podem agravar situações de desgaste já existentes dentro da organização.

Alimentação e contas domésticas aparecem entre as maiores pressões sobre o orçamento. Quando o salário não cobre nem o essencial, cobrar foco absoluto do trabalhador pode ser apenas outra maneira de ignorar a realidade.