Bolsonaro depõe no STF e muda o tom: “Golpe é coisa abominável”

Ex-presidente nega articulação golpista, pede desculpas a Moraes e tenta se dissociar dos ataques de 8 de janeiro.

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Foto: André Borges/EPA

Em um dos momentos mais simbólicos da história política recente do Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro depôs nesta terça-feira (10/6) ao ministro Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal (STF). Réu em um processo que investiga uma suposta tentativa de golpe para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro adotou um discurso diferente do tom combativo que marcou sua trajetória.

“Golpe é uma coisa abominável”, afirmou Bolsonaro, em tom ameno, ao responder a Moraes.

Durante cerca de duas horas de depoimento, transmitido pela TV Justiça, o ex-presidente negou qualquer plano de ruptura democrática e chegou a pedir desculpas ao ministro por acusações feitas no passado, como a de que integrantes da Corte teriam recebido propinas em dólares.

A audiência marcou também o encerramento da fase de instrução do processo, que inclui ainda outros sete réus, entre eles ex-ministros, generais e um almirante da reserva. Todos negaram participação em articulações golpistas e buscaram se dissociar dos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes bolsonaristas invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília.

Ao ser questionado sobre a chamada “minuta do golpe”, documento que previa medidas extremas, como a decretação de Estado de Sítio e até a prisão de ministros do STF, Bolsonaro reconheceu que discutiu alternativas pós-eleição, mas disse que todas foram descartadas.

“O after day é imprevisível e danoso. Nunca cogitamos essa hipótese”, garantiu.

Mesmo recluso após a derrota eleitoral, Bolsonaro afirmou que não teve relação com os atos de 8 de janeiro, classificando os envolvidos como “pobres coitados” e “malucos”. Segundo ele, “quem realmente fez foi embora”, referindo-se aos autores das depredações.

O tom conciliador do ex-presidente surpreendeu analistas e até parte de seus apoiadores mais radicais.

“Está tratando Moraes com deferência, pedindo licença para tudo, fazendo piadinhas banais”, observou o professor de Direito Rafael Mafei, da USP. Para ele, essa mudança de postura pode enfraquecer a narrativa bolsonarista de perseguição.

Além de Bolsonaro, o general Braga Netto, que está preso desde dezembro, prestou depoimento por videoconferência.

“Eu estou preso, presidente”, disse, rindo, ao ser questionado se havia sido detido anteriormente. Moraes respondeu: “Eu sei que o senhor está. Eu que decretei”. Braga Netto negou qualquer participação em arrecadação de recursos ou articulação de ações golpistas.

Já o general Augusto Heleno se limitou a responder perguntas da própria defesa e disse desconhecer qualquer plano batizado de “Punhal Verde Amarelo”, que previa atos extremos, incluindo atentados contra autoridades.

Com a fase de instrução encerrada, abre-se prazo de 15 dias para que defesa e acusação apresentem suas alegações finais. A partir daí, o processo será encaminhado para julgamento pela Primeira Turma do STF. Ainda sem data definida, o veredito pode determinar penas que, somadas, ultrapassam 40 anos de prisão.

Mesmo que escape da cadeia, Bolsonaro permanece inelegível até pelo menos 2030, por duas condenações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Enquanto isso, sua defesa tenta afastar o ex-presidente do centro das decisões golpistas. A Justiça, no entanto, dará a última palavra.

*Com informações da BBC News Brasil.