
As urnas falaram. Em uma das disputas presidenciais mais acirradas da história recente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República neste domingo, 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos. A vitória, legítima e democrática, encerra mais um processo eleitoral marcado pela intensa polarização política e revela uma realidade que não pode ser ignorada: o Brasil continua profundamente dividido.
Encerrada a eleição, é preciso compreender uma premissa fundamental da democracia: Lula deixou de ser candidato de uma parcela da população para assumir, novamente, a responsabilidade de governar todos os brasileiros. Inclusive, e sobretudo, aqueles que não votaram nele.
O presidente da República não pertence a um partido, a uma ideologia ou a um grupo político. Sua responsabilidade é com a nação inteira. Deve governar para homens e mulheres, negros e brancos, ricos e pobres, trabalhadores e empregadores, empresários e servidores públicos, civis e militares. Todos, indistintamente, merecem respeito, representação e igualdade de tratamento por parte do Estado.
A vitória eleitoral não pode ser interpretada como autorização para aprofundar divisões, alimentar ressentimentos ou promover perseguições políticas. Em uma democracia madura, adversários não são inimigos, divergências não representam crimes e a oposição não constitui ameaça a ser eliminada. O pluralismo político é fundamento da nossa Constituição e deve ser respeitado, especialmente por quem exerce a mais elevada função do Poder Executivo.
Isso não significa defender impunidade. Eventuais crimes, independentemente de quem os tenha praticado, devem ser rigorosamente apurados pelas autoridades competentes, especialmente pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, com independência, imparcialidade e absoluto respeito ao devido processo legal. A Justiça não pode ser instrumento de vingança política, assim como a política não pode servir de escudo para a prática de crimes. Cada instituição deve cumprir seu papel constitucional, sem interferências indevidas.
O resultado das urnas também exige uma leitura responsável. Uma vitória por margem relativamente estreita não representa um cheque em branco. Ao contrário, impõe ao presidente reeleito uma dose ainda maior de humildade política, capacidade de diálogo e disposição para ouvir uma sociedade que, em grande parte, manifestou preferência por outro projeto de governo.
Há, igualmente, desafios econômicos que não podem ser negligenciados. O Brasil enfrenta preocupações relevantes quanto à sustentabilidade das contas públicas, ao crescimento da dívida, à produtividade e à capacidade de atrair investimentos. Os alertas de economistas sobre o risco de agravamento do quadro fiscal e econômico exigem medidas concretas, e não apenas discursos tranquilizadores.
Será necessário enfrentar reformas estruturais, aperfeiçoar a gestão pública, controlar despesas, estimular a atividade produtiva e criar condições para a geração de empregos e renda. A responsabilidade fiscal não deve ser tratada como bandeira ideológica, mas como compromisso com as atuais e futuras gerações. Afinal, quando a economia entra em crise, são justamente os brasileiros mais vulneráveis que suportam as consequências mais severas.
Mas talvez o maior desafio de Lula neste novo mandato seja de natureza política e institucional: pacificar o Brasil.
Pacificar não significa exigir unanimidade, silenciar críticas ou apagar diferenças. Significa reconhecer a legitimidade de quem pensa diferente, restabelecer pontes de diálogo e compreender que nenhum país prospera de maneira duradoura quando seus cidadãos são permanentemente estimulados a se enxergar como adversários irreconciliáveis.
O Brasil precisa substituir a lógica do confronto permanente pela cultura da responsabilidade, do respeito e da construção coletiva. O governo deve dialogar com o Congresso Nacional, respeitar a independência dos Poderes, assegurar as liberdades individuais e compreender que o interesse nacional deve prevalecer sobre qualquer conveniência partidária.
A eleição terminou. A democracia permanece. E os problemas do país não desapareceram com a divulgação do resultado das urnas.
Que o presidente reeleito tenha a grandeza de compreender que governar é muito mais do que vencer eleições. É tomar decisões difíceis, respeitar as instituições, reconhecer divergências e trabalhar para melhorar a vida de todos, sem distinções.
Lula venceu a eleição. Mas seu verdadeiro desafio, a partir de agora, será demonstrar que é capaz de governar também para os milhões de brasileiros que não o escolheram.
O Brasil não precisa de vencedores contra vencidos.
Precisa de um presidente comprometido com todos.
E, acima de tudo, precisa voltar a se reconhecer como uma só nação.
*Gabriel Brandão é advogado, sócio-proprietário da Gabriel Brandão Advocacia, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal e presidente da Comissão de Direito Penal Econômico da OAB/CE







