O peso do passado na nova oposição

Aliança entre antigos adversários deve transformar vídeos, discursos e contradições em armas centrais da disputa de 2026.

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Paulo César Norões, Publisher do Etc.

Com a consolidação da aliança entre Ciro Gomes e setores do PL no Ceará, a oposição entra na pré-campanha de 2026 diante de um desafio tão delicado quanto inevitável: convencer o eleitor de que as mudanças de posição dos seus principais atores fazem sentido dentro do atual cenário político.

E a dificuldade começa justamente na tentativa de separar o que é acordo local do que é alinhamento nacional. Pelo menos neste primeiro momento, Ciro tenta manter essa fronteira bem desenhada. Questionado sobre eventual aproximação com o presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, o tucano preferiu desconversar. Seus aliados do PSDB seguiram exatamente a mesma linha, insistindo que a articulação com o PL cearense não significa adesão automática ao bolsonarismo nacional.

O problema é que a política contemporânea vive de imagem, vídeo e circulação instantânea de conteúdo. E aí surge uma contradição difícil de ignorar: no vídeo de lançamento da pré-candidatura de Alcides Fernandes ao Senado aparecem lado a lado Alcides, André Fernandes, Ciro Gomes e Flávio Bolsonaro. Ou seja, enquanto o discurso tenta regionalizar a aliança, a imagem acaba nacionalizando o debate.

Naturalmente, o grupo governista vai explorar isso à exaustão. Faz parte do chamado “jogo de narrativas”, componente permanente da política moderna. E o Ceará viveu recentemente um exemplo muito parecido.

Na eleição de Fortaleza, em 2024, André Fernandes liderava pesquisas apresentando ao eleitor uma versão mais moderada de si mesmo. Só que adversários passaram a resgatar vídeos antigos gravados pelo próprio parlamentar, expondo falas radicais e posicionamentos que confrontavam diretamente aquela nova imagem.

Curiosamente, entre os que mais exploraram esse material no 1º turno estavam aliados de hoje, como Capitão Wagner e José Sarto. O fato é que a desconstrução da imagem de moderação construída por Fernandes teve peso importante na vitória apertada de Evandro Leitão (PT) no segundo turno.

Isso significa que a mesma estratégia funcionará novamente em 2026? Não necessariamente. Cada eleição cria seu próprio ambiente político e emocional. Mas é evidente que oposição e governo já começam a disputar qual versão dos fatos vai prevalecer: a dos discursos atuais ou a do vasto arquivo político acumulado ao longo dos anos.

No fim, como sempre, a palavra decisiva será do eleitor.