A alfabetização voltou ao centro do debate nacional com números que chamam atenção — e também convidam à reflexão. Em cerimônia em Brasília, o governo federal celebrou o avanço do país no Indicador Criança Alfabetizada: 66% das crianças da rede pública já leem e escrevem na idade adequada, superando a meta prevista para 2025. O dado, por si só, sinaliza recuperação importante diante das perdas recentes.
Mas o que está por trás dos números é um esforço articulado entre União, estados e municípios. A adesão integral ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada mostra que, ao menos no papel, houve alinhamento de metas e estratégias. Como destacou o ministro Camilo Santana, “cada estado e cada prefeito pactuou suas metas”, numa tentativa de transformar o indicador em política de Estado, e não apenas de governo.
A premiação do Selo Nacional de Alfabetização entra nesse contexto como instrumento de estímulo e reconhecimento. Mais de 4,7 mil municípios foram certificados, com destaque para os que atingiram o nível ouro — caso do Ceará, que já ultrapassa, com folga, a meta projetada para 2030. É um dado relevante, especialmente por indicar que resultados consistentes são possíveis mesmo em cenários desafiadores.
Ao mesmo tempo, é preciso cautela para não transformar o selo em fim, e não meio. A própria diretriz do programa reforça que o reconhecimento é simbólico e deve servir como ferramenta de autoavaliação. Em outras palavras, o desafio não é apenas premiar boas práticas, mas garantir que elas se tornem regra — e não exceção.
Outro ponto que merece atenção é a desigualdade entre redes e territórios. O avanço nacional não elimina as diferenças locais, que só devem aparecer com mais clareza na divulgação detalhada dos dados. É aí que a política pública será realmente testada: na capacidade de alcançar quem ainda ficou para trás.
A fala de uma estudante durante o evento resume bem o sentido do esforço coletivo: “A alfabetização é o começo de todos os sonhos”. Mais do que um slogan, a frase traduz um consenso raro — o de que garantir leitura e escrita na idade certa é, talvez, a política pública mais estruturante de todas.




