Fim da patente do Ozempic abre corrida por genéricos no Brasil

Mercado deve ganhar concorrência, queda de preços e novos investimentos industriais.

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A possível perda de exclusividade da semaglutida no Brasil, prevista para março, abre um novo capítulo no mercado farmacêutico nacional. O medicamento, base de produtos como Ozempic, Wegovy e Rybelsus, deve entrar em uma fase de concorrência ampliada, com a chegada de genéricos e biossimilares — versões altamente semelhantes de medicamentos biológicos produzidos a partir de células vivas.

Em entrevista ao jornal O Globo deste domingo (1º), o presidente do Grupo FarmaBrasil, Reginaldo Arcuri, classificou o momento como um “ponto de virada”. Segundo ele, a mudança decorre da consolidação do entendimento jurídico firmado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2021, que fixou o prazo das patentes em 20 anos a partir do registro. No fim do ano passado, decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) afastou tentativas de prorrogação, liberando a produção de medicamentos à base de semaglutida a partir de meados de março.

Hoje, há pelo menos 13 pedidos de registro de medicamentos com esse princípio ativo em análise — sete deles apresentados por empresas brasileiras. A expectativa é que a concorrência pressione os preços ao longo de 2026. “As leis do mercado vão funcionar. Vai haver uma disputa por preços”, afirmou Arcuri, ponderando que a redução tende a ocorrer de forma gradual, conforme os novos produtos entrem no mercado.

Segurança jurídica e produção nacional

Para a indústria nacional, o novo cenário representa mais que competição. Significa investimento produtivo e domínio tecnológico. Arcuri ressalta que a política de genéricos, em vigor desde 1999, segue estratégica e agora se soma ao avanço dos biossimilares — área em que o Brasil já ocupa posição de destaque na América Latina.

Esse protagonismo, segundo ele, está ligado à base industrial instalada e às Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), que estimularam a internalização de tecnologias complexas, como a produção de anticorpos monoclonais. O país também aprovou recentemente a nova lei de pesquisa clínica, considerada fundamental para acelerar testes e registros de medicamentos inovadores.

Anvisa e acesso ao SUS

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou edital para agilizar a análise de pedidos relacionados à semaglutida, diante do aumento de importações irregulares e casos de falsificação. A autarquia já avalia parte dos processos desde o ano passado.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a ampliação da oferta pode representar economia futura, embora o impacto dependa das negociações e da incorporação tecnológica. No mercado privado, a tendência é de maior acesso, sobretudo se a competição se confirmar nos próximos meses.

“Não há nenhuma barreira definitiva para que o Brasil se transforme em mais um membro do clube de países emergentes que deram um salto na indústria farmacêutica”, afirma Arcuri.

Próxima década: metas ambiciosas

O setor farmacêutico brasileiro é hoje o oitavo maior mercado do mundo em volume de vendas. O desafio, segundo Arcuri, é transformar tamanho de mercado em capacidade produtiva e exportadora.

Entre as metas traçadas pelo Grupo FarmaBrasil para os próximos dez anos estão dobrar o número de empregos no setor, alcançar R$ 35 bilhões em investimentos, reduzir em 15% o déficit da balança comercial e registrar ao menos 50 produtos de inovação incremental até 2035, além de projetos de inovação radical em fase clínica.

As áreas prioritárias seguem a tendência global: oncologia, diabetes, doenças cardiovasculares e imunológicas — reflexo do envelhecimento acelerado da população brasileira.

O desfecho da disputa em torno da semaglutida, portanto, vai além das chamadas “canetas emagrecedoras”. Ele sinaliza como o país pretende se posicionar na cadeia global de medicamentos de alta complexidade — combinando regulação, política industrial e capacidade tecnológica.