Congresso amigo do povo: por que o voto no Legislativo importa — e muito

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#Ilustração: Arte de Claudius Ceccon para a campanha suprapartidária ‘Congresso amigo do povo’

A campanha “Congresso amigo do povo”, que será lançada nesta segunda-feira (12) por parlamentares e representantes da sociedade civil, recoloca no centro do debate um ponto frequentemente negligenciado pelo eleitor brasileiro: a importância das eleições para deputado federal e senador. A iniciativa reúne nomes de diferentes campos partidários — como Luiza Erundina, Patrus Ananias e Pedro Campos — e tem entre seus articuladores Chico Alencar, que resume o problema: o Parlamento pode ser fator de progresso ou de retrocesso.

O alerta é pertinente. O foco quase exclusivo nas disputas para presidente, governadores e prefeitos produziu, ao longo dos anos, um efeito colateral evidente: a subvalorização do voto legislativo. O resultado aparece no cotidiano das Casas: debates de baixo nível, grosserias explícitas, gritaria e xingamentos que empobrecem a deliberação pública. Não se trata apenas de preparo técnico; é também uma crise de civilidade e compromisso republicano.

O paradoxo se agrava porque nunca o Congresso foi tão poderoso. Com a ampliação do controle sobre parcelas expressivas do orçamento federal por meio das emendas parlamentares, o Legislativo tornou-se ator central na execução de políticas públicas. Ainda assim, a transparência e a rastreabilidade desses recursos seguem aquém do desejável, alimentando desconfiança e indignação social.

A campanha dialoga, de forma inteligente, com o imaginário recente das redes ao se contrapor ao slogan “Congresso inimigo do povo”, popularizado após episódios de radicalização política associados ao bolsonarismo e às discussões sobre anistia aos condenados pelos ataques de 8 de Janeiro, ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao propor um “Congresso amigo”, o movimento desloca o debate do ataque genérico para a responsabilidade concreta do voto.

A arte que simboliza a iniciativa é assinada por Claudius Ceccon, um dos fundadores de O Pasquim, e incorpora pautas centrais do atual governo Luiz Inácio Lula da Silva, como o combate ao feminicídio, a taxação dos super-ricos e a revisão da escala de trabalho 6×1. Concorde-se ou não com essas agendas, o ponto central permanece: um Legislativo qualificado é condição para qualquer projeto democrático consistente. Seja para apoiar ou criticar.

Há ainda um aspecto incontornável: muitos dos atuais parlamentares disputarão a reeleição. Se desejam credibilidade, precisam começar agora a mudar o ambiente que ajudaram a criar — elevando o nível do debate, respeitando regras de transparência e reafirmando o compromisso com a governabilidade. A conscientização do eleitor é urgente, mas a autocrítica dos eleitos também.

No fim das contas, a campanha cumpre um papel pedagógico essencial. Democracias não se sustentam apenas com Executivos fortes; dependem, sobretudo, de Parlamentos responsáveis. Um Congresso republicano, qualificado e transparente não é um favor ao governo de turno — é um serviço ao país.