As dificuldades para consolidar a federação entre União Brasil e PP, anunciada como a maior força política do Congresso, se refletem de forma clara no Ceará. Nos dois partidos, há divergências profundas sobre o posicionamento em relação ao governo estadual e à articulação para 2026 — diferenças que ajudam a explicar por que, mesmo após atos públicos e discursos de unidade, a aliança segue sem registro formal no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
No PP, o deputado federal AJ Albuquerque apoia abertamente o governo Elmano de Freitas (PT). Seu pai, Zezinho Albuquerque, deputado estadual licenciado e secretário das Cidades, também integra a base governista. Já no União Brasil, a divisão é ainda mais explícita: enquanto o presidente estadual, Capitão Wagner, lidera a oposição, outros nomes de peso, como o prefeito de Maracanaú, Roberto Pessoa, e o deputado federal Moses Rodrigues — ao lado do pai, o prefeito de Sobral, Oscar Rodrigues —, mantêm sintonia com o Palácio da Abolição. Moses, inclusive, é cotado para disputar o Senado em uma chapa governista.
A indefinição cearense é vista como um retrato das dificuldades enfrentadas pela futura federação para harmonizar projetos regionais tão distintos. O impasse sobre a filiação do ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, ao União Brasil, anunciada desde junho e reiteradamente adiada, reforça a impressão de que o quadro partidário ainda está longe de um consenso.
Um projeto ambicioso, mas ainda no papel
Em nível nacional, o União Brasil e o PP negociam desde o início de 2023 a formação de uma federação que prometia unir bancadas, ampliar o tempo de TV e consolidar uma frente de centro-direita capaz de rivalizar com o PT nas eleições de 2026. O “lançamento oficial” ocorreu em abril de 2025, seguido por outro ato, em agosto, quando as duas legendas aprovaram a aliança internamente. Mesmo assim, até o momento não houve pedido formal de registro no TSE.
Entre os principais entraves estão divergências sobre o comando da federação e o alinhamento com o governo Lula. Embora a cúpula das duas siglas tenha anunciado o “desembarque” do Executivo, ministros filiados aos partidos permanecem em seus cargos: Celso Sabino (Turismo, União Brasil) e André Fufuca (Esporte, PP). Ambos defendem a continuidade da parceria institucional, contrariando as diretrizes partidárias.
A situação expõe o abismo entre discurso e prática. Enquanto dirigentes como Antonio Rueda (União) e Ciro Nogueira (PP) pregam independência em relação ao governo federal, líderes parlamentares e ministros preferem manter a influência e os espaços de poder conquistados.
Caiado x Ciro: o duelo que paralisou o projeto
O embate público entre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), e o presidente do PP, Ciro Nogueira, tornou-se símbolo da disputa interna. Caiado, único nome anunciado como pré-candidato à Presidência pela federação, acusa Nogueira de articular a aliança apenas para viabilizar-se como vice do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
“Se você monta o maior time do país, é pra ser campeão ou é pra ser vice-campeão?”, provocou Caiado nas redes sociais, em uma das declarações que incendiaram a crise.
Nogueira respondeu com ironia, dizendo que “não perderia tempo com polêmicas vazias”. O atrito revelou o quanto o projeto da federação é mais um mosaico de ambições individuais do que um plano de convergência política duradoura.
Entre o discurso de unidade e a prática da conveniência
Na prática, União Brasil e PP continuam integrando a base do governo Lula, com quatro ministérios sob seu comando. Controlam ainda pastas estratégicas e órgãos como a Caixa Econômica Federal, o Ministério das Comunicações e o da Integração e Desenvolvimento Regional — estes últimos sob influência direta de Davi Alcolumbre (União-AP) e Arthur Lira (PP-AL).
A promessa de uma “superfederação independente” perde força diante da dificuldade de romper com o Executivo. Parlamentares das duas siglas reconhecem que a permanência no governo garante recursos e articulação política que dificilmente seriam compensados por uma oposição isolada.
O desafio da coerência
Enquanto o registro formal da federação não é protocolado, cresce a percepção de que o projeto nasceu de um cálculo mais eleitoral do que programático. A convivência entre lideranças com visões opostas — tanto no Ceará quanto em Brasília — torna a federação um desafio de coerência.
No papel, União Brasil e PP planejam ser o grande bloco de centro-direita nas eleições de 2026. Na prática, ainda precisam provar que conseguem funcionar como um único partido — com disciplina, convergência e um discurso que vá além da conveniência do momento.




