Indústria cearense apresenta plano para enfrentar tarifaço de Trump

O presidente da FIEC, Ricardo Cavalcante, alerta para a gravidade da situação e a urgência de ações coordenadas entre os setores público e privado.

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Fotos: George Lucas

Em resposta ao chamado “tarifaço de Trump” — pacote de medidas que eleva significativamente as tarifas de importação de produtos brasileiros aos Estados Unidos — a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) apresentou, nesta quarta-feira (6), um conjunto de propostas para mitigar os impactos das novas tarifas sobre a economia cearense. Em coletiva de imprensa, o presidente da FIEC, Ricardo Cavalcante, que tinha ao lado de Amílcar Silveira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado Ceará (FAEC), destacou a gravidade da situação e a urgência de ações coordenadas entre os setores público e privado.

Ceará é o estado mais exposto

Com 51,9% de suas exportações voltadas ao mercado norte-americano, o Ceará é, proporcionalmente, o estado brasileiro mais impactado pelas novas tarifas. Somente no primeiro semestre de 2025, foram mais de US$ 556 milhões exportados para os EUA — valor que inclui produtos como aço, pescados, cera de carnaúba, castanha de caju, água de coco, calçados e mel.

Segundo levantamento da FIEC, 16% de tudo que o Ceará exportou aos EUA será diretamente afetado pelas tarifas, que saltam para até 74% em alguns casos, como calçados. Em produtos como placas de aço, a tarifa chega a 50%, enquanto em itens típicos do Nordeste, como castanha de caju, água de coco e cera de carnaúba, as alíquotas sobem de 10% para 50%.

Ricardo Cavalcante: “Enquanto o Brasil é taxado em 50%, o Vietnã, que exporta castanha de caju, está entrando com 25% e tomando mercado. A luta que o Ceará travou para alcançar 50% das exportações para os EUA, nenhum outro estado conseguiu. Isso precisa ser defendido com firmeza”

Propostas da FIEC: ações federais e estaduais

Para enfrentar os efeitos do tarifaço, a FIEC propõe um pacote de medidas em dois níveis:

No âmbito federal:

  • Criação de uma “hardcota” (cota fixa) para o aço brasileiro;

  • Retorno da alíquota mínima de 3% do REINTEGRA;

  • Pagamento imediato de créditos presumidos de IPI e da Lei Kandir;

  • Prorrogação de regimes especiais de drawback e flexibilização para inclusão de insumos secundários;

  • Linha de crédito para exportações com contratos ACC/ACE;

  • Prorrogação de empréstimos e capital de giro com subsídio.

No âmbito estadual:

  • Pagamento direto de créditos de ICMS da Lei Kandir, sem deságio;

  • Redução para 0,01% da alíquota de ICMS dos Fundos e Encargos para setores afetados, entre agosto e dezembro de 2025;

  • Compra prioritária de produtos cearenses no programa Ceará Sem Fome, com foco em pescados, mel, água de coco e castanha.

Produtos típicos na pauta diplomática

A FIEC também pretende influenciar as negociações entre os governos brasileiro e norte-americano. A entidade sugeriu a inclusão de itens típicos do Nordeste nas discussões, como cera de carnaúba, castanha de caju, água de coco, pescados e calçados. A ideia é pleitear isenção ou exclusão desses produtos da sobretaxa, com base na sua importância regional e baixa concorrência com o mercado interno dos EUA.

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Impacto regional

Municípios como Fortaleza, Camocim, Icapuí, Eusébio, Russas, Itarema, Paraipaba e Aquiraz estão entre os mais afetados, concentrando as exportações de produtos como peixes, lagostas, castanha e cera. Em alguns casos, até 95% da produção exportada tem como destino os Estados Unidos.

Articulação política

Ricardo Cavalcante reforçou a necessidade de articulação política nacional para proteger os setores produtivos.

“Estamos falando de milhares de empregos e da sustentabilidade econômica de diversas cadeias produtivas no estado”, alertou.

O documento com as propostas já foi encaminhado ao governo federal e ao Congresso Nacional. A expectativa é que as medidas possam ser incorporadas à estratégia de negociação do Brasil com os EUA, reduzindo os danos de mais uma escalada protecionista.