
A nova pesquisa do instituto Paraná Pesquisas reforça um cenário que o país conhece bem: Luiz Inácio Lula da Silva mantém ampla liderança nas simulações de primeiro turno para 2026, mas chega ao segundo turno em posição de equilíbrio com os principais nomes da direita. É um desenho que lembra, em muitos aspectos, o que antecedeu a disputa de 2022 — com a diferença nada trivial de que agora Lula ocupa o Palácio do Planalto.
Os números mostram que o presidente vence com folga na largada, mas esbarra em um eleitorado dividido quando o confronto é direto: Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro aparecem próximos o suficiente para configurar empate técnico. Até Ratinho Jr., que testa imagem nacional há menos tempo, surge competitivo. O dado não altera apenas análises estatísticas; ele recoloca o país na mesma lógica de polarização que definiu o ciclo anterior.
Há, porém, uma nuance importante. Em 2022, Lula era oposição. Bolsonaro, na cadeira presidencial, buscava a reeleição — e perdeu. Agora, o presidente chega à disputa com a força do cargo, mas enfrentando o mesmo ambiente político fragmentado, marcado por bolsonarismo sólido e rejeições cruzadas. A pesquisa sugere que, até aqui, esse equilíbrio entre campos permanece praticamente inalterado.
O avanço de Flávio Bolsonaro, a consistência de Tarcísio e o capital simbólico de Michelle reabrem o debate sobre quem carregará a bandeira do bolsonarismo. É um processo que deve se intensificar ao longo de 2026, em meio a testes públicos, ajustes de discurso e movimentações internas. A direita trabalha, de forma explícita, para consolidar nomes viáveis ao Planalto.
É cedo para antecipar tendências irreversíveis. Faltam quase dez meses para a eleição — tempo suficiente para inflexões relevantes, crises inesperadas ou reorganizações de alianças. Mas também é possível que o país caminhe exatamente para onde parece estar indo: mais uma disputa apertada entre os dois polos que dominam a política brasileira desde 2018.
A polarização, portanto, não perdeu vigor. A fotografia atual indica um país praticamente reproduzindo o tabuleiro de quatro anos atrás. Resta observar se o filme dos próximos meses confirmará esse roteiro. Em política, tudo pode mudar. Ou permanecer como está.
*Paulo César Norões é colunista e Publisher do Etc.




