Quem pede voto deve explicações

Mais que declarar bens, candidatos deveriam esclarecer aumentos patrimoniais incompatíveis com a renda.

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O desafio de Lula (PT) a Flávio Bolsonaro (PL) para que ambos abram seus sigilos bancário e telefônico, incluindo familiares, pode render algo mais útil para além do atual embate eleitoral. Pode abrir uma discussão sobre a origem do patrimônio de quem pede o voto do cidadão.

Depois da provocação no debate da Band, Lula anunciou que encaminharia ao TSE uma autorização de acesso aos dados dele, da esposa e dos cinco filhos. Flávio afirmou não ter nada a esconder, mas não confirmou adesão à proposta. Ainda é cedo para medir os efeitos da iniciativa.

A questão, porém, vai além dos dois: por que não tornar mais rigorosa e permanente a fiscalização da evolução patrimonial dos candidatos? A declaração de bens já existe. O avanço seria exigir explicações documentadas para aumentos incompatíveis com a renda declarada, com critérios iguais para todos e direito de defesa.

Não é raro encontrar casos de políticos que apresentam um crescimento substancial no seu patrimônio de uma eleição para a outra. Patrimônio maior, por si só, não comprova irregularidade. Mas inconsistências precisam gerar apuração e respostas. Se o contribuinte comum deve prestar contas ao Fisco, quem pretende administrar recursos públicos também precisa ter suas informações submetidas a uma fiscalização efetiva.

Abrir sigilos tampouco constitui um atestado automático de honestidade. O que pode melhorar a representação política é transformar a cobrança de palanque em regra impessoal, com verificação técnica e consequências para fraudes comprovadas.

O obstáculo é conhecido: mudanças assim dependem, em boa parte, dos próprios políticos. Eis uma cobrança que o eleitor pode e deve fazer a todos, independentemente do partido. Transparência não deveria depender de um desafio entre adversários.