Foto: Lula Marques/Agência Brasil
A investigação sobre o suposto esquema de desvio de recursos públicos via emendas parlamentares no Ceará ganhou novos capítulos. Além do deputado federal Júnior Mano (PSB), apontado pela Polícia Federal como figura central da operação, o Supremo Tribunal Federal autorizou, no dia 24 de junho, a apuração de indícios envolvendo outros três parlamentares da bancada cearense: José Guimarães (PT), líder do governo Lula na Câmara; Eunício Oliveira (MDB); e Yury do Paredão (MDB).
Segundo decisão do ministro Gilmar Mendes, a menção aos nomes desses deputados em conversas interceptadas pela PF justifica a necessidade de diligências específicas para esclarecer a natureza das citações, os valores envolvidos e uma possível vinculação ao esquema. Os elementos constam do relatório que embasou a operação Underhand, deflagrada no dia 8 de julho em cinco municípios cearenses.
Indícios e conexões
No caso de Yury do Paredão, a PF destaca a atuação de uma secretária parlamentar de seu gabinete em contato direto com Carlos Alberto Queiroz, o “Bebeto de Choró”, acusado de liderar o núcleo operacional do esquema. A servidora teria solicitado informações sobre a execução de uma emenda no formato “pix”, modalidade que dispensa convênio formal e, segundo a PF, apresenta maior vulnerabilidade para desvios. A suspeita recai sobre o repasse de R$ 10 milhões ao município de Choró, em 2024.
A investigação aponta ainda diálogos entre o próprio deputado e Bebeto, incluindo questionamentos sobre recursos da saúde em “cidades suas”, o que, segundo a PF, sugere um envolvimento para além do apoio político.
Já no caso de José Guimarães e Eunício Oliveira, os dois são citados em conversas entre Bebeto e outros operadores do esquema. Um dos trechos menciona o vice-prefeito de Canindé, Ilomar Vasconcelos (PSB), como responsável por intermediar emendas atribuídas a Guimarães, com posterior exigência de retorno financeiro de até 10%. A ex-prefeita da cidade, Rozário Ximenes, relata que chegou a receber propostas de liberação de recursos condicionadas ao pagamento de “pedágio”.
Um diálogo relatado pela PF aponta ainda que Eunício teria informado, por mensagem de áudio, a destinação de R$ 1 milhão para Canindé, enquanto Guimarães teria indicado outros R$ 2 milhões para Choró. Os dois deputados, segundo a PF, mantêm influência significativa sobre prefeituras no interior do estado.
Esquema com ramificações em 51 municípios
As apurações da PF indicam que o grupo ligado a Bebeto teria atuação em ao menos 51 municípios cearenses. Uma das empresas apontadas como peça-chave no esquema é a MK Serviços, que mantém contratos com dezenas de prefeituras e tem como sócio um vigilante de baixa renda, com patrimônio incompatível com a estrutura da firma. Para os investigadores, trata-se de um “laranja” do esquema.
O que dizem os citados
José Guimarães negou ter direcionado emendas aos municípios de Canindé e Choró nos anos de 2024 e 2025 e afirmou não ser alvo de inquérito. Reforçou que, na eleição municipal mais recente, disputou contra o grupo que atualmente comanda Choró.
Eunício Oliveira, por sua vez, declarou que todas as suas emendas seguem os critérios legais e anunciou a suspensão do repasse para Canindé após a divulgação das investigações.
Yury do Paredão afirmou que sua atuação parlamentar é pautada pela transparência e que os dados das emendas estão disponíveis nos portais oficiais. Reiterou estar à disposição para esclarecimentos.
Já Júnior Mano, alvo principal da operação, reafirmou não exercer qualquer função administrativa em prefeituras e declarou confiar nas instituições, acreditando que a verdade será restabelecida ao fim da apuração.
A liderança do PSB na Câmara, por meio do deputado Pedro Campos, defendeu o direito à ampla defesa e afirmou esperar o esclarecimento dos fatos com celeridade.
As investigações continuam sob a supervisão do STF e podem ampliar o cerco sobre o uso indevido de emendas parlamentares, prática que já vem sendo questionada em outros estados pela falta de controle e transparência no repasse de recursos públicos.




